O MORENO E OUTRAS DROGAS | O Moreno

segunda-feira, setembro 28, 2015


Ele olha me de uma maneira pensativa, como se quisesse ver algo escondido dentro da minha alma, depois de observar com atenção cada mexa do meu cabelo que eu pego e com a qual brinco. Ele tem um jeito curioso de procurar a resposta antes mesmo de pronunciar a questão, só para provar a si mesmo que pode ser autossufiiente; o problema, é que quando se trata de nós, ele quase nunca sabe encontrar respostas sozinho. Suspira bem fundo, cansado daquela busca incessante por algo que sabe que não irá descobrir, e pergunta me o que foi que eu vi nele e que me fez querer ficar. Logo eu, a rainha da independência amorosa, dona de discursos sobre liberdade emocional, devota da ideia de deixarmos o coração livre e solteira de profissão, começo a pensar aposentar me. Eu sorrio de relance vendo-o lutar para decifrar o indecifrável, e respondo transmitindo a certeza que lhe falta: não faças as perguntas difíceis, Moreno, não é o que eu vi em ti, é que eu vi-te; e o amor tem dessas coisas.



Não adianta bater o pé, trancar a porta e fechar a janela, que é para ser, não importa o que tu faças para impedir. Ele entra pela chaminé, escala o telhado, quebra as paredes e deita-se no meio da sala em cima do seu tapete peludo, convida te para se aconchegar ali do lado, como se toda aquela quebra de estruturas não pudesse provocar infinitos estragos. E que provoque. Que abale. Que destrua. Amor tem que ser tempestade e tarde de verão, ao mesmo tempo, tarde de domingo não altera os batimentos os cardíacos. Olho te enquanto tu te perdes no embalo do silêncio, de volta, como é que eu ia querer ir embora se sem ti a vida ia ficar um tanto preto e branco? Como é que eu ia sobreviver a abstinência que o seu gosto me causaria? Eu fiquei, simplesmente, porque eu não teria forças para ir embora sem ti.
Eu gosto dele um pouco mais do que eu pretendia gostar, gosto o suficiente para querer passar as tardes a encarar o teto do quarto e a rir de histórias sem graça enquanto os nossos corpos juntam se num misto de desejo e amor. Eu gosto do jeito como ele ri, principalmente quando é para mim. Gosto da maneira como ele me olha penetrando em cada pensamento que eu escondo do mundo, procura por algo que só ele sabe que existe. Gosto da maneira como nós nos agarramos, num abraço apertado e fazemos um do outro morada. Gosto do som que os nossos risos fazem quando contracenam no mesmo palco. Eu gosto de nós, de um jeito meio sem sentido, que faz tudo dar certo. Tu olhas me de volta e devolves o sorriso que estampo no rosto, e enquanto nós nos encontramos um no outro, entendemos também, que fugir seria impossível. Tu já não és mais tão autossuficiente para não precisares que eu esteja a teu lado e o meu amor só era independente, porque eu ainda não tinha encontrado a minha droga certa.

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