Quando o senti o despertador denunciar o começo de um novo dia, o meu corpo foi apoderado por um alívio cósmico. Era como se todo o peso de um ano péssimo tivesse saído de meus ombros e dado lugar a uma sensação agradável. Aquele dia ainda agora tinha começada e já me estava a sorrir com uma oportunidade de recomeçar, era uma nova chance de ser feliz.

Na noite de ano novo, como em outros anos, enquanto bebia champanhe depois de ter brindado com a minha família estava pronta para escrever a minha lista de resoluções. Só que escolhi que 2017 seria diferente. 

Quero deixar bem claro que não sou o tipo de pessoa que julga quem está em relações tóxicas. Muito pelo contrário: acho que nos últimos meses da minha vida fui consumida por uma, que estaria a ser hipócrita ao achar me melhor do que quem abusa ou é abusa. Independentemente dessa já não ser a minha realidade, sei que deixou cicatrizes que vou levar para a vida.

O problema é que eu não sei amar. Sempre vi os meus amigos a amarem, namorarem e a divertir se, e por mais que eu tentasse que comigo fosse do mesmo jeito, o tiro parecia sempre sair pela culatra. Não sei que idade tinha quando me convenci que namorar com alguém me fazia propriedade dela, mas com dezassete anos afastei me dos meus amigos rapazes e comecei a recusar saídas com as minhas amigas por tua causa. E mesmo que no inicio do nossa namoro as coisas não fossem bem assim, talvez no quarto ou quinto mês deixaste de ser o meu moreno para passares a ser o meu dono. Ou pelo menos, nós começamos a agir como se essa mudança realmente tivesse acontecido.

Tu deste conta do quanto eu dependia de ti? Tu eras a minha companhia nos momentos de felicidade, descontração, tristeza e depressão. Houve uma altura em que não suportava mais ficar sóbria e tu eras o meu álcool. 

Creio que admitir o nosso problema foi um passo importante. Tentei, diversas vezes, verbalizar tal preocupação contigo, mas parecia sempre que tu vias aquela situação como algo normal ou então que eu estava mais uma vez a fazer um drama na minha cabeça. Não te culpo por não me teres aberto os olhos, eu era a única pessoa que caminhava com os meus sapatos, eu é que tinha a obrigação de perceber que algo estava errado, eu é que tinha de me afastar.

A verdade é que só dei conta de que algo estava errado depois de me afastar, quando paramos de nos ver. Após 70 dias sem ti, comecei a comer melhor, a exercitar me e a minha mente está mais estável, a minha voz está mais firme, durmo em paz e tenho mais disposição.
Chega até ser engraçado o quanto tu tiraste de mim sem que nem eu desse conta. Em dois meses e dez dias, voltei a ser alguém serena, fácil de lidar e sensata. Alguém que não tem mais motivos para deixar outra pessoa decidir por si.



Sei que estou somente nos primeiros passos de uma jornada que será longa, difícil e cheia de tentações. Sei que toda esta situação ainda me vai fazer sofrer durante mais um pouco. Mas resolvi escrever sobre isto, abrir um pouco do meu coração, para mostrar, principalmente a pessoas que estão na mesma situação em que eu estive, nunca é tarde de mais para cortar os laços que te ligam a alguém que se aproveita do amor que sentes por ele/a. Passei por isso durante quase dezanove meses e agora sei que só preciso de mais um dia e que ficarei bem. Motivo pelo qual direi a mim mesma que só preciso de mais um dia até não precisar de mais nenhum.